A inflação foi o grande vilão de muitas economias (em especial a brasileira, durante anos). Durante as
décadas de 80 e 90, era comum que, dentro de um mês, o preço do feijão (por exemplo) dobrasse. Essa
hiperinflação é extremamente prejudicial ao país, que vê sua moeda perdendo valor diariamente e, os
habitantes de seu país, tendo que fazer compras no dia que recebe o salário, para que consiga fazer com
que o dinheiro não perca valor de um dia para o outro. A partir disso, como a inflação afeta as ligas
esportivas? É possível ter inflação dentro de uma liga?
Começarei falando de futebol, mais especificamente das grandes ligas europeias. São elas as que
possuem os melhores jogadores do mundo e o futebol mais admirado do planeta. Isso tudo é possível
devido ao dinheiro que essas ligas recebem. Na União europeia, entre 2009 e 2018, houve uma inflação
acumulada (10 anos) de 13,76%, ao mesmo tempo que houve um crescimento de mais de 90% nas receitas dos
clubes de futebol. Isso permite que, por exemplo,
os gastos com jogadores aumentem sem que, e mais jogadores queiram ir jogar nesses países, uma vez que
são as ligas mais poderosas e que continuam crescendo (a inflação não tem uma influência tão grande no
crescimento das ligas).
Por outro lado, no futebol brasileiro, ocorre exatamente o contrário. Apesar de o crescimento das receitas
ter sido exponencial entre os anos de 2010 e 2019 (mais de 90%), a inflação do real, no mesmo
período, foi de 75%. Com isso, os clubes de futebol brasileiro tiveram um crescimento pífio se
comparado ao crescimento das ligas europeias. Tanto que, apesar de aumentar as receitas, os clubes
brasileiros têm que aumentar, da mesma forma, os salários, para acompanhar a inflação, o que acaba
consumindo esse aumento das receitas e fazendo com que, o nível do futebol nacional, como um todo, não
tenha uma melhora significativa.
Já vimos como a inflação de um país pode interferir nas ligas esportivas do mesmo país. Mas é possível
que, dentro da liga, haja inflação (sem que o efeito da inflação do país seja importante)? A resposta é
sim. O exemplo mais clássico para isso é a NBA. Ao contrário das outras ligas citadas até aqui,
a NBA é uma liga em que há teto salarial e que é uma liga fechada (os jogadores não entram por
transferência de outras ligas, apenas pelo draft). No ano de 2015, a NBA começou a ser patrocinada e
televisionada (com gigantesca audiência) na China. O teto salarial nessa temporada deu um salto de 14
milhões de dólares (quando o comum era o aumento de 1 milhão de dólares por temporada).
Com todo esse aumento na verba para salários, os clubes acabaram aumentando os salários de seus próprios
jogadores, ou contratando novos jogadores por salários mais altos que o antigo normal, sem que esses
jogadores fossem melhores. Apenas, sobrava dinheiro. Esse aumento dos salários pode ser visto como
inflação interna (dentro da própria liga o dinheiro passou a valer menos).
Portanto, há diferentes formas de inflação entre ligas e, essa inflação, quando ocorre externamente à liga
(como no Brasil), pode impactar negativamente no crescimento das ligas nacionais, uma vez que o aumento
das receitas é fruto da inflação. Ao mesmo tempo, a inflação controlada e o aumento da receita trazem
ainda mais poder às ligas já poderosas da Europa, que não precisam se preocupar com a inflação para
“medir” seu crescimento. Por fim, a inflação pode ocorrer dentro de uma liga, como ocorreu na NBA e
reduzir o quanto o valor da moeda apenas dentro da liga (o dólar não teve inflação), dando aos jogadores
mais dinheiro sem que o dinheiro tenha perdido valor no país, tendo perdido valor apenas na liga.